sábado, 14 de junho de 2008

Em claves - música em mim.



É engraçado como certas complicações antes travadas em nível íntimo e pessoal terminam por se desmanchar e sumir como uma bolha de sabão. Não entendo toda esse vontade de tornar-se um existir mais diferente que o outro, ou um deixar de ser quem eu sou de formas exageradas, exacerbadas, ou trabalhar a vida como o vento. Passou, e já foi.
Eu não entendo.
Pretensões de entendimento nem sempre entram em questão. É melhor ficar quieto.

E tudo aquilo que tem um livre fluir me encanta. Dou a melhor parte de mim e assim vêm as recompensas. Trâmites recompensadores, desígnos consolidados. Desejos saciados.
Daí mais desejos encaminhados, projetados em si.
Enamorados em mim.

Desta e de outras vidas que perpetuam como sono, vindo todo dia, sendo "presente".
Invariáveis situações me tratam como se eu fosse aquela criança imatura cheia de dramaticidade que se desmancha para poder conseguir o que quer. O amor é maior do que esses casos onde o apelo é afetivo.



Lorena A.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Haikai.



No porta-retrato
um tempo respira,
morto.




Yeda Prates Bernis.

Fé.


Fé.
E eu soube o quanto não era fácil. O semblante segurava o que o coração queria transbordar. Foi assim durante todos esses dias. Mas quando há o enlaço em Morfeu, o tecido íntimo se mancha de dor, lamúrias de um sentimento que não passará jamais.
É mais tudo isso não quer dizer nada, porque uma vida continua e eu queria que ela continuasse assim mesmo, mas queria também um manual de como enfrentar toda a confusão causada por conta de fatos tão sórdidos.
O choro é profundo, o sentimento é profundo, a perda é profunda. A sete palmos do chão que eu nem tive coragem de ver. Mas fazer o que se tudo o que nasce, cresce, enlouquece, reproduz, incha e morre? Normal, Eu tenho conformações cabíveis pra conviver com essa realidade absoluta, o que não me bate é essa necessidade social de que eu tenho que te mostrar a pungência da minha dor. Pra que mesmo? Você tem antídoto? Eu achei uma antídoto. Teve gente que percorreu esse caminho comigo, me deu colo, afago e tudo aquilo que eu te falei ontem que queria. Pois tudo isso veio. E veio de um alguém que agora já está na distância chamada longe.

Da lama ao quarto me veio a condição de ser tua.
[Lá] pelas quatro me vi em nós.
Somente dois.



Lorena A.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Congratulations!

Em detrimento de atribulados dias vividos por esta autora que vos escreve, digna de seus escritos publicados neste viril blog, esqueci-me de comemorar a data certa do nascimento deste tão bem nutrido meio de perpetuação de idéias minhas aos incompreendidos e efevercentes que o leêm.
Agradeço a todos que adentram nos meus diversos mundos. O lisonjeio me invade quando vejo a quantidade de comentários relevantes e de números de leitores.
E como forma de agradecimento, o vídeo da música-banda-refrão inspiradores do título do blog.

The Gathering - In Motion #2.

Drink my tears as I cry.





Obrigada à todos!


Lorena A.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Mourning.

Mourning.

E sorrateiramente o anjo da morte bateu à minha porta.
Mesmo custando a atendê-la, eu fui lá, destranquei a porta e ela entrou.
Feito um vendaval naqueles extremos continentes, onde eu nunca pus os pés.
Como quem não queria nada, ela me foi cruel, cumprindo fielmente seu papel, trazendo a dor, a incerteza, a mudança, a insegurança e o medo.
E me trouxe aqui para levar-me a pessoa mais linda que conheci em toda minha vida.



Adeus, meu pai.
Que Deus, dono de todo esse mundo,
E de todos os outros que eu ainda não descobri,
Apenas adiou desta vez, o nosso encontro.



Lorena A.

terça-feira, 27 de maio de 2008

A quem quer que seja.




No sagrado e no profano,
Me reina uma condição.
Por estar dentro um do outro,
Não tenho mais nem coração.
O que um dia a vida cala,
O sentimento lateja,
Ensinando durante os tempos
A quem quer que seja.



A quem quer que seja.




Lorena A.

Almost there!



E eu ainda não me livrei desta verdadeira verdade, consolidada, com gosto de saudade.
Daquela vontade de chegar em casa do trabalho e te jogar na minha cama. De aparar a sua barba e futricar sua barriga. Ou melhor, deixar que você me futrique. Bem sentimento de balança, eu prefiro não decidir nada. Apenas sinto vontade e sugiro-as de vez em quando.
Quando o seu ser quer, ele me obedece, mas quando não, sou eu que tenho que fazer manha, antes que todas as idéias tolas se tornem visões ad[úl]t[er]as da minha vida e me façam deixar voar nessa constância impermanente de ser menina, ou de ser mulher, tanto faz.
O gênero é o mesmo e eu ainda não sou capaz de mudá-lo nem com a minha pretensão. Não sou Deus [ainda]!
E ainda aquela que grita feito gasguita disse que eu ia ficar louca. É difícil, porque eu enlouqueci lá atrás, num passado até que meio recente [ou indecente] pra gente. É difícil alguém enlouquecer mais de uma vez. Só se fica louco de verdade uma vez na vida.
E o cheiro de saudade ainda desmonta a minha boca.
Pupilas gustativas me distinguem da maioria dos mortais, me lembram o tempo todo o quanto sou real. Me lembram o tempo todo o quanto a realidade é transitória e eu até certo tempo estava perdendo tempo. Mas quando eu resolvi jogar a lagartixa na parede e chamá-la de meu amor, tudo ficou certo, simétrico, lindo...
... e com um sorriso encantador.


Lorena A.

domingo, 25 de maio de 2008

A voz do silêncio.



"Pior do que a voz que cala,
é um silêncio que fala.

Simples, rápido! E quanta força!

Imediatamente me veio à cabeça situações
em que o silêncio me disse verdades terríveis,
pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.

Silêncios que falam sobre desinteresse,
esquecimento, recusas.

Quantas coisas são ditas na quietude,
depois de uma discussão.
O perdão não vem, nem um beijo,
nem uma gargalhada
para acabar com o clima de tensão.

Só ele permanece imutável,
o silêncio, a ante-sala do fim."

[...]

[fragmento do texto A voz do Silêncio, de Marta Medeiros].

sábado, 24 de maio de 2008

attack.



e eu
que sempre fui destas cores,
destas formas de ver.
duas, três quatro cores.
é só que se vê.
nada além de poucas luzes,
pelas frestas da cortina,
é o pouco claro que há.
nada que impeça que a fome,
nesta noite,
de mim
vá a te atacar.





Lorena A.


roads.


mais do que
podemos imaginar,
precisamos de caminhos,
assim como aqueles espinhos
nos causam a lentidão da dor.
viver alegremente
ardentemente
morrendo
de fazer amor.







Lorena A.



picture by danillo.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Unbeliveble.



Incrivelmente a paz ressurgiu. Nada do que uma meia dúzia de palavras tortas e bobas não desarmem certas armaduras.
Tudo na ampulheta agora.
No tempo.



Lorena A.


terça-feira, 20 de maio de 2008

Could be.



Eu poderia ser aquela que acordou tarde e encontrou um vazio na cama. Eu poderia ser aquela que diz que vai cuidar de você e no entanto, não consegue nem dar-te os remédios certos na hora certa. Eu poderia ser aquela que fica do seu lado, que sai com você à noite e distribui toda simpatia em seu nome. Eu poderia ser também, aquela que diz que gosta de você de verdade, mas que no fundo, não é ela que você ama.
Eu poderia ter ficado contigo, até quando um abajur fazia mais diferença sua vida do que eu. Eu poderia ter ficado ao seu lado, mesmo que sem o corpo presente, esperando uma luz caísse na sua cabeça e te mostrasse o meu real valor. Eu poderia sim, ter ficado inerte, aparente, inconsciente, esperando a melhor hora pra deixar de te amar.
Mas como eu poderia ser tanta coisa, preferi ser eu mesma, sendo aquela que escuta o seu violão tocar e se arrepia. Aquela que escuta o ruído do seu sorriso e estremece. Aquela que viu nos seu olhos, a beleza do teu ser. A vontade de viver que tanto você tenta esconder.
E de mim você não esconde nada. Nem esta vontade insana que se perpetua durante toda uma vida (juntos), e não tem medo de nada.
Em busca da vontade coerente, o acidente foi pré meditado. Já estava escrito nas e[n]strelinhas.
E tudo foi por água abaixo.



Lorena A.

domingo, 18 de maio de 2008

Na ânsia de estrangular esse impertinente sonho.



Por pura impertinência alheia eu resolvi mudar. Decidi desenvolver a minha vida de maneira léxica e metafórica. Alguns absurdos me surgiram, mas eu tirei completamente de letra, ou de música, ou de canção. Mas isso não importa, o que importa mesmo é a distância. Sabe por quê? porque eu comprei uma arma poderosíssima contra essa que maltrata a minha pele, o meu músculo e me faz desidratar de vez em quando. Uma arma praticamente silenciosa, e nesse meu ver atual, quase que lúdica. Eu tinha medo dela, mas resolvi dá-la de presente daí acabou o medo. Engoli esse medo junto com o meu orgulho e um gole de coca cola zero. Ui! Mas foi bom, porque daí eu fui enfrentar outros monstros lá na rua, monstros que vivem de manhã de tarde e de noite.
Fui obrigada a fumar um cigarro. Em tempos de anti-lisergia, ele parece mais um objeto de falta de classe, anti ecológico, anti relax. Eu acho bom quando eu tô nervosa, saí do trabalho com aquela dor lombar e meu celular descarrega. Enquanto isso acaricio o meu gato que desse jeito também vai sofrer dos pulmões que nem eu daqui a alguns anos. Mas é como eu disse, o presente eu já dei, agora só resta esperar a aceitação positivista.
É bom porque eu fico leve quando você troca toda sua malícia por essa vontade sua de querer me ouvir, coisa de mulher isso, mas eu também gosto quando você vem com as safadezas ensaiadas em muitos anos. Levemente fico rindo quando você fica monossilábico e eu sei exatamente a função disso ou o seu significado. Sinal de que até o seu silêncio é ouro pra mim, prata pra outras.
Nada de falsificações aqui. O tempo trocado em miúdos foi suficiente pra descobertas íntimas de condições e redenções. Até para adivinhações de pensamentos e descobertas no outro. Esse frio congela meu coração e eu fico cada vez menos eu.

E nessas costas era aonde sua mão deveria nadar.





Lorena A.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Frozen.



Acho que congelei.
Todo aquele fulgor desapareceu.
A realidade é cinza e sincera e eu tô congelada.
Fria, trôpega.
Melhor, atropelada.
Ofuscada por reflexos de egos sentimentais,
Eu parei, congelei no tempo a meu modo.
Com molho de camarão e uma pespi mundo afora.
Tinha deixado de mão aquela sensação de prisão,
Prisioneiro absoluto.
Tudo era vago
Mas mesmo assim fazia sentido.
E alma sentia mais cada um dentro de si.

Captou?




Lorena A.


quarta-feira, 7 de maio de 2008

pregnant.


Uma calmaria transbordante tomou conta de mim. Grávida de uma espera. Tive que me fazer paciente. Enquanto ela não estiver toda formadinha e pronta pra sair, ela não poderia vir ao mundo e eu jamais poderia desejar isso. Ia fazer mal à mim, ia fazer mal à você. Enfim, ia fazer mal a todo mundo e é disso que eu não vivo.
Mas não viver mais da ânsia da chegada, eu me peguei discutindo com prazer o por quê de não irromper essa trajetória geradora, que afinal de contas eu tenho que gerar o quê? Será que daqui a nove meses eu vou vomitar todo o meu ardor e pedir perdão por tê-lo? Obviamente, você não será o médico que tratará de minhas dores e que prevenirá a minha eclâmpsia.
Vamos ver no que vai dar.
O zigoto [bem] desenvolvido de uma paixão.
Será que vai ser bonitinha?
{Não se avexe não, baião-de-dois!}


Lorena A.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

1, 2, 3!




E eu naquela posição mesma que dormi eu acordei. Tudo pardava. Eram como se fossem as corruptelas sentimentais que eu costumo deixarem partir-me ao meio. Mas não numa senso-condição de vontade autônoma. Mas sim filha de uma possibilidade nada extrema, nula.

Em meio a esta tarde turquesa, eu fico a me achar, dentre aqueles devaneios que latejam nas nuvem do meu cérebro. Um gelo em meio ao coração. Que só derrete com o calor do teu corpo.







Lorena A.

Justo agora.



Eu ouvi dizer que você assim
Como quem não quer nada
Perguntou por mim


Agora

Logo agora

Justo agora

Eu ouvi você
Me dizer que sim
Mas era silêncio o que se ouvia
Quando dei por mim


Agora

Logo agora

Justo agora

Eu ouvi dizer que você assim
Como quem não quer nada
Perguntou por mim

Agora

Logo agora

Justo agora


Eu ouvi dizer
Que você assim
Como quem não quer nada
Perguntou por mim






[...]




adriana calcanhotto.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Almost a dance.

Tentei aquele passo,

Ensaiei entrar no ritmo,

As cores enfeitaram o transe.



...e eu transpirei uma felicidade absurda.



Deslizei meus trêmulos dedos pelo seu ombro nu.

O compasso era audível.



...e eu só me percebia em tu.



Tudo num momento

Tudo num enlace.

O que seria então, meu Deus,

De mim sem esse teu disfarce?



Catástrofe absoluta

Pequeno abalo sísmico em mim.



Um dia, enquanto o homem

A Mãe-Terra habitar,

Bons ventos o trarão de volta

A este aflito olhar.



Junto com a amplitude, um segredo

Que durante o tempo

Da minha boca nunca ousou saltar.



Mas, fácil assim como a Lua muda

Assim como a chuva perpetua

Disponho-me a pensar e descubro



Que na música entendo o dançar

E nesse peito onde ainda dorme esplêndido,

O meu amor há de te encontrar.










Lorena A.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Percus-sou[l].


O batuque...
O batuque...

O repique me sopra um conselho
de antemão:
'Deixa fluir o desejo neguinha,
Nesse teu coração'.

A batucada de ontem
Reflete no peito de hoje.
As andanças que no mundo percorrem
Chegam ao fim
Nesse teu olhar.

O corpo,
A malícia.
As coisas que ficam por dizer,
O som do agogô,
Na pêa do couro do tambor.
Na ginga do triângulo,
Me perco no teu amor.

Um percus-sou[l].
Uma matriz máxima do ritmo
A visão elaborada, desígno.
Da vontade total de ser dada
Consumida,
Pelo teu ressoar.

Então treme neguinha,
Desarma essa tua marra,
Traz os teus cachos e esse teu rebolado
Faz de conta que o mundo
Tá na ponta do tamborim...

Dançou,
Veio pra mim.
Então tudo fluiu
Numa mente sana
E corpore samba.



Lorena A.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Terrivelmente sempre Piauí.

A cada qual estrela matutina que brilha agora de longe, naquelas manhãs nada frescas onde somente podia sentir a brisa durante suas primeiras horas. E quando menos se espera, já se vê em estado de cansaço do sentir, por ter muita luz do Sol desta terra penetrando em suas retinas. E em ver que aquele rio vaporiza o calor humano que essa terra tem pra dar.
Todo dia é todo dia muito igual. Até quando as nuvens carregadas da previsão do tempo são insistentes e se desmancham como as meninas faceiras neste lugar, o calor é altivo e me deixa mole. Mole e com vontade de ir embora. Mole de vontade de correr por entre essas ruas, intercortando assim feito a Lua quando briga com o Sol. E olha que o Sol aqui, mais do que em qualquer outro lugar, é o rei.
Seu reino foi fortificado na caatinga e aos filhos que deste legado nasceram, restou uma propagação da dinastia paterna: o amar esse fervor tão reluzente, como nas tardes quase que insuportáveis de outubro.

E quando o peregrino desceu as vielas do centro da cidade-capital desde estado quase em chamas, viu de longe que aqui havia uma peculiaridade única, pois tendo percorrido diversamente outras entranhas no país tupiniquim, sabia que ali eram onde moravam poetas, revolucionários e sim, muitos sertanejos semi-árido.
E sim, eu amo o sem-árido.
A falta de chuva, a busca da gota de água para o florescer da exuberância caatinga me apavora e me encanta. Me deixa com falta de sono e muda. Me remete à busca da água salgada, litorânea menor desse país.
Quando ponho os meus pés andantes aqui, então, vivo uma atmosfera de prelúdios, como se eu houvesse a minha vida toda estado completamente e não intermintentemente, como já faço a alguns anos. É torto, rebuscado, mas ao mesmo tempo transmite uma leveza quase que doentia, que busca na rede estendidas nas varandas de parnaíba um refúgio, um luto sobre tudo que é angustiante, e me deixa só, sozinha com meus deleites aventuranos.
Imaginações me dão as asas pra pensar naqueles homens erectus cavernísticos que estiveram aqui provando da docência deste meu antro-lugar. Admito que diante das grandes maravilhas de suas riquezas esculpidas em pedras pela chuva não existente o ano todo, desenhadas por mãos australopitecas em paredes de pedras arcaicas, em castelos erguidos no meio de um nada histórico. Eu me sinto tão enraizada, com a sensação de ter-me achado, pisado numa atmosfera lunar.
O calor aqui não me deixa só, assim como essas pessoas não transeuntes, que querem fazer com que eu me esqueça quem sou. Não. Absolutamente não, aqui eu sou mais que eu. Eu sou todas.
Com meu eterno gosto de cajuína na boca e cheiro de carne de bode de brasa. Aqui os campos maiores já me viram e eu serei sempre a bela que à tarde ardente se rende, esperando uma noite nada vazia, preenchida por canções que revelam esse meu amor enturmescido.
Dentro do meu sotaque abobadado, redondinho, que quase eu não percebo; que até já tentei um disfarce nada convincente; carrego- te, óh terra querida filha do Sol do Equador, em qualquer que seja o meu enlaço com qualquer outra terra. Terrivelmente sempre Piauí.


Lorena A.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Certeza.

Era tipo assim como o cheiro de neném acabado de tomar banho. Não que você pudesse ser como uma criança, embora muitas vezes você comportou-se como tal e eu tive certeza de que você o era. E com esse tal comportamento comprometedor de maturidade, eu ficava anulada, retesada, com medo de que tivesse que te criar, te dar de mamar, e não pudesse nem mais sair de casa sem ter que deixar o leitinho quente esperando a hora da mamada.
Mas como nessa vida é tudo muito nada, tudo cai por terra e sempre vem pra me mostrar que as mudanças não existem por acaso, sejam elas de qualquer natureza, eu consegui perceber, depois de muito tempo que a validez dessa forma comportamental era apenas o reflexo completo do quanto a medida da sua indecisão era grande. O quanto o seu medo me queria longe, mas que era fraco diante do seu maior combate, o mais íntimo. A minha existência no seu coração.
Passei a vida toda sabendo que ele era enganoso, que quanto mais se ouvia, mais perdida e confusa eu deveria ficar. Posso até dizer que sim, que diversas vezes, por distração, por atraso, por acaso, impaciência, e até uma certa obstinação, eu era mesmo enganada, e enganada da forma mais sutil e cruel, enganada por mim mesma e pelo sentimento falso que eu insistia em muitas vezes guardar e alimentar dentro de mim.
Mas o que se dá depois que se descobre que um tal sentimento que você durante tantas noites, tantos dias se esforçou pra destruí-lo, pra tê-lo como ruim, como naquelas vezes você dizia o quando ele era inútil, o quanto ele te fazia mal e o quando você queria tê-lo longe de você?
E aí, eu volto pra historinha do engano e tudo volta a fazer sentido.
Vem uma coisa que mais me dava medo nessa vida, e que quanto mais eu fugia, mais ela se tornava aparente à mim.
Aqui ou lá, ela sempre esteve, imponente, me dizendo o tempo todo: "Aqui sempre vou está, do seu lado, te guiando. Mas não em temas. Sou sua aliada."
Só consegui entender essas palavras quando te conheci. Quando descobri a tua língua e consegui acompanhar o que você me dizia, quase que simultaneamente.
Nessa hora eu escutei um samba, e ela de fato tornou a ser quem sempre foi. A certeza do tal verdadeiro sentimento.
E aquela voz rouca que me jurava dor aos ouvidos, não fala mais, afoniou-se, e eu, só escuto os teus desígnos, aqueles que brilham nos teus olhos.
Tua beleza.





Lorena A.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Quem me viu, quem te vê.

Ah! Quem me viu, quem te vê!
Uma confusão que foi tomada pela segurança de teus braços.
UmA Divina Comédia ao acaso.
Que ao inferno e ao firmamento percorri
Sendo o caminho dentro do teu corpo
Dentro dos meus pensamentos.

Oh! Quanto eu estava errada!
Quanto errado de ti eu pensava!...
E de erros assim seguia atordoada,
Com a chave da solução na minha mão
E a venda nos olhos que a mim não permitia
A fechadura certa destravar!

Por fim, o fim é o mesmo começo.
O ébrio amor
A doce ternura.
Mas não o mesmo desejo ardiloso
Que à dor cedia e à mim escravizava
Mas que aos passoa da plenitude me faz seguir
Não de botas,
Tampouco de sandálias
Mas no descalço
Com sentindo pureza
Com sentindo sermos uno.




Lorena A.

Dream Rain.




Enquanto a ouvir o gorjeio da chuva que caía atrás do vidro de minha janela naquela tarde não muito fria - nem de meias eu precisava, pois meu corpo estava quente -, saudava-me num adormecido não muito profundo, a delícia de um sonho escaldante. Era como se fosse o ímpeto de meu pensamento. Projeções que me transmitiam sensações reais: tato, paladar, olfato.
Podia ouvir o seu sussurrado em meio à surdez da multidão. Estridentes músicas faziam fundo ao encontro de dois olhares. E desde o primeiro instante eles se amaram, até mesmo quando, visualmente, ainda não estavam um dentro do outro.

Como sois exuberante! Como soa bela em meus ouvidos todo o brilho do teu olhar! Resplandece a pureza de minh´alma, pois no fundo deles, estou eu, sendo eu, a que de concordado da distância desistiu; e em teus braços ardentes entregou-se. Sendo plena.



Lorena A.

sábado, 5 de abril de 2008

Brilho.



Porquanto o concordado calou-se. Fez-se instante e de repente aquietou-se. Os motivos não tão claros, transformaram-se em piedade extrema. Lamento? Não. Só penso que em mim não vai dar nada. Nunca deu em nada. Já fazia parte do passado e a triste menina cantou de novo aquela canção.
Pareceu como aquela vez que eu fui no banheiro e o sangue desceu. É, assim mesmo como a lágrima que escorreu por algum rosto. E eu não sei necessariamente se foi no meu. De algum lugar ela saiu, porque eu escutei o choro de longe... Meio abafado, mas indócil, dizendo com murmúrios claros que pra sempre era o fim.
Enfim.
Nem sempre no im imaginado tudo acaba-se. Muito pelo contrário. É tudo muito começo de tudo e com razão. A Fênix da minha presença está ai pra comemorar a altitude do ego. A elegância de um desprezo. A potencialidade da indiferença.

Sabia que é tão bom ser assim?
Que pena não cruzar contigo tamanhas descobertas absortas. É tão divertido!
As máscaras caem e eu continuo ilesa, porque a minha está com super-cola.

Teu dia está pra chegar, dizem as previsões nostradamísticas.
Entendeu alguma coisa? Eu, não; e, na verdade, eu não estou aqui pra entender coisa alguma, e na verdade, eu não estou aqui pra explicar, e na verdade eu não estou aqui pra te dizer o que fazer.

Bem sei eu o que fazer. Mas o esparadrapo na boca me fez calar. Me fez ressoar apenas o que o corpo não conseguiu esconder, o que estava nos olhos e não parou de brilhar.
Brilho inútil e delatador.
Tua virtude em mim é o caos, o fatídico dizer improvisado, cheio de prenúncios e sentimento.


E qual foi o bobo que falou em sentimento?!
Xii... não sei.

Talvez aquele que escreveu isso e sentiu.



Lorena A.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Objetos Circunstanciais.




A persistência insistente do querer,
A transeunte noção de vida.

Musgo de rosas
Que pena meu rio não desaguar no teu mar...

Pena de galinha,
De passarinho,
De galo estridente.

Cantando de manhãzinha assim:
Cheia de manha,
Cheiro de arte.

O arteiro arteou-lhe a poesia!

Salvei -me!
Daquele que me presunçou o domínio
Que não foi oculto em nenhum minuto
Mas presente no resguardo do medo.

Te disse que isso ainda ia dar naquilo
Quem mandou você brincar de amor
Comigo no ofurô...

Óh, furou!
Furou meu coração com a flecha do cupido
Que cuspiu no prato que morreu.

É, você morreu?
Em mim não...

Liberta que serás livre também!


Lorena A.


Quem ferve, sente.


Tilintando nesse frio



Creio na necessidade do amor



Na necessidade do ardor



Pra descongelar esses meus pés



E o meu músculo ôco.






Falo com murmúrio de serpente



Uma serpente de espinha quebrada



Onde sentiu pisar-lhe, então.






Toda esta dor vem do desejo



Do desejo que aviva meu coração



Que sucumbe à tua indiferença



Que desmancha



Mas que ferve meu sangue



E me mantêm viva.









Lorena A.

Levianidade



Leviatã sucumbido,
palavras torpes jogadas ao ar.
Liberdade indecente, doce fruto de um amar.
projetei meu mar de rosas, um mar de sonho,
de devaneidade.
Enquanto certos dias aconteciam
E a esperança, açucena maltratada,
machucada,
mal cabia em mim.

Agora receio que tudo o que possa vir do mundo.
Intolerantes julgamentos,
Acusações levianas.

Existe dentro de tudo isso uma chama viva,
Mas que não me acende como antes.
Terrivelmente pálida, soturna.

Porque não posso mais esquecer o passado
Porque não posso mais prever o futuro.



Lorena A.

sábado, 29 de março de 2008

Rescue-me.



A amostra inconsequente de um sentimento
pode nos tornar reféns de nós mesmos.
À correntes de lembranças.
Fantasmas disfarçados de bons momentos.
Relevo.
Pois nem tudo é sonho.

Ontem fiz o amor.
Ontem o fiz transparecer a forma sublime
e objetivamente humana
Humano, demasiado, humano.

Quero cada minúncia dessa condição.
Quero o pecado enturmescido em cada dia.
Na variedade sensorial dos meus sentidos.

Quero o gozo da existência.
E não quero perdão.




Lorena A.

sexta-feira, 28 de março de 2008

In-racionalidade.



Vamos brincar de racionalidade?

Vamos brincar com essa estranha sensatez de ser?

Vamos boicotar o júbilo às paixões intermitentes

Impermanentes que habitam este teu ser incrédulo?


Adoro os ins...


Os insanos

Os inconstantes

Os inaudíveis

Os incompreensíveis

E os insuportáveis.


Tá vendo?

[...]

Você deve se encaixar em alguma dessas categorias

Pois eu não sei viver sem você.




Lorena A.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Cinza.




Não sucumbir à graça daquilo que te atormenta.
Sê chuva de desígnos,
De perdições.

Faz desse dia fundido,
O fatídico,
A misteriosa e vã absoluta terçã
Sofréguida.
Entrelaçada de murmúria e sonhos.

Meus calabouços trancaram-se.
Não me deixam mais perpetuar
A percepção
De um lado de fora.
Do meu lado de fora.

Você vê?
Eu não enxergo.

Apenas entre os olhares,
Entre máscaras desenhadas de lirismos
Sucumbem diante do meu mais libertino pensamento
Julgo ao mento
me[n]ta foricamente abstração.

Saber o que ser então?

De forma alguma.
A tristeza toma conta
A angústia contamina,
E eu continuo assim

Cinza.


Lorena A.


Blake.



Todas as bíblias ou códigos sagrados têm sido a causa dos seguintes erros:

1. Que o homem possui dois princípios reais de existência: um corpo e uma alma.

2. Que a energia, denominada mal, provém unicamente do corpo; e a razão, denominada bem, deriva tão-somente da alma.

3. Que Deus atormentará o homem pela eternidade por haver imantado suas energias.


Mas por outro lado, são verdadeiros os seguintes contrários:

1. O homem não tem um corpo distinto da alma, pois aquilo que denominados corpo, não passa de uma parte de alma, discernida pelos cinco sentidos, seus principais umbrais nestes tempos.

2. Energia é a única força vital e emana do corpo. A razão é a fronteira ou perímetro circunfeérico da energia.

3. Energia é Eterna delícia.




[William Blake]

sexta-feira, 21 de março de 2008

Trying to get some rest.



Estranhos ventos trouxeram minha alma trôpega
Ao mais escuro do consciente.
Não me pertubo.
Não me permito.

A invasão foi latente...
O dizer, indizível.
O dizer foi sentimento perdido
Dentro de absurdações abstratas.
Dentro do desequilíbrio emocional.

Desequilíbrio.
É agora o mental que percebo,
Que nele convivo.

Por isso...
Pare com esse barulho
Que eu estou tentando descansar.




[...]


Será que a mente evolui?
Ou apenas entra na camufla?


Lorena A.


segunda-feira, 17 de março de 2008

Undesire.




Sois condenado pelo crime cometido antes de tua nascença

Antes do projeto de tua existência.

É visível o deserto púrpuro nestes rostos

Nas faces crespas e incrédulas

Nos traços finos e simétricos

Nas feições brutas e tortuosas.

Até naqueles que não possuem domínio alheio,

Que não se deixam decifrar.

Torno-me então desbravadora

De semblantes ocultos

Perdidos em submundos superficiais.

Dentro do crime antes mencionado,

Perceptível apenas através do submundo do consumo,

Da consumo-ação.

Submundo insensatez.

E em tuas vestes, meros dizeres calados,

Reflexos do teu mundo interno,

Ou do conteúdo vazio do teu bolso.

Renda-se então humano!

Ao maior dos prazeres da carne!



A ostentação.







Lorena A.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Another time.



Secas lágrimas de estupidez
A doce dor de um porquê
A vez que não me teve
E somente de vez em quando
Num desencanto
Se fez perder no eco de um talvez.



Lorena A.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Por mim.




Por mim,
Eu estaria em você desde ontem

Desde quando eu te descobri em mim.



Por mim,
Eu passaria horas tentando descobrir qual a escala que nos separa,

Ou qual o grande feito que eu tive que fazer pra te ter.



Por mim,
Deixaria passar em branco as grandes batalhas travadas por nós dois

Quando o mundo era pequeno e grande

Quando o mundo era só nosso.

[Ou só meu].



Por mim,
Eu invadia todo esse seu mundo

E fazia valer todo o meu mais que importante querer.



Por mim,
Era só você dizer que sim.

E eu,

Te chamava de querubim.









Lorena A.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Ponto crucial.




O difícil é ter que acordar do coma,

Depois de ter sentido o melhor.



Entrar nesse quadro de frases

De dizeres,

Aonde eles pedem a maior parte do tempo

Uma transformação em atos.



Espero em dois pontos.

Vivemos de vírgulas

E de até alguns pontos-e-vírgulas.





Mas cansei das reticências.

Quero o crucial,

Um ponto final.







Lorena A.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Transbordante.



Nem o bendito tempo conseguiu derramar o desencanto
Que durante anos,
Fez-se companhia minha.

Ainda bem,
Porque dele tiro total proveito
Proveito para as minhas dúvidas
Proveito para o que eu quero ser
E ter.

Você sempre fez parte da minha dança
A criança que eu teimo em cuidar
Que precisa do meu apoio
Do meu consolo
E teme em amar.

Mas como o amar de mulher é o que sinto
É bem mais verdadeiro
É o que tudo um dia você desejou
Como o seio carregado que o rebento amamenta
Dando o mais puro e belo
Fruto de um ser;
Eu me entrego
E digo-lhe
Que dentro de uma porção amena
De espera,

O vulcão voltará a transbordar.



Lorena A.

Permanes[s]cência.




E enquanto toda a razão tenta se justificar

O calor de um beijo me faz ceder,

Eu permaneço a te esperar

Dentro de nuvem de dúvidas

E tempo sem cessar.





Lorena A.



sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Eu.

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…
Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino, amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!
Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…
Sou talvez a visão que
Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

[florbela espanca]

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008





Eu sei quem sou e é aí que o bicho não me pega.


By Arianne Pira-Já!





quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O que será [à flor da pele]

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo


[texto do coração azul de chico buarque]

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Divagações [não] têm que ser curtas 3

[...]

O tratado foi então anulado e eu fiz outro tratado, o com a minha loucura. Mas com uma loucura só minha, que me deixa muito mais além, mas não aquém. Não a quem quer que seja. Eu sou minha, só minha; de uma vontade egoísta que eu nunca pensei que fosse capaz de me permitir sentir. É, porque tudo na realidade do antes seria apenas a doce vontade, que se chama por medo, medo de sofrer um tal de remorso que apenas a pouco tempo eu descobri o quê que era.
Porque assim é muito mais fácil pra você, muito mais fácil pra ele e muito mais prazeroso pra mim, o gosto amargo da facilidade me corrompe e eu volto a ser a menina boa que antes a tudo cedia e fazia da sua vida um palco de dançarinos de sapateado onde ressoam até hoje o eco de seus calçados.
O muito bom não está mais por vir, ele já veio e com ele o espelho do mundo, de uma consciência absoluta, dominadora que é capaz de fazer milagre com as palavras. capaz de mudar-te, de te fazer perder a fala, de fazer ser quem você acha que não é.
Talvez isso soe ate meio pecado, mas de pecado e eu entendo e acho doloroso viver sem o pecado. enquanto todos querem viver longe deles eu quero mais é que o pecado da compaixão se alastre e eu, de vez em quando chore um pouquinho também. Misericórdia.



Lorena A.

Divagações [não] têm que ser curtas 2

[...]

Então me rendi ao que mais achava que era bonito... Óh coisa linda e pervesa paixão! Eu, não! Não quero mais esse troço não, que me faz perder o medo e cair pra trás. Deixar de lado a identidade e ser do acaso, um troço inventado pra gente poder fazer o que quiser com a vidinha alheia.
Afinal de contas eu ganhei um cérebro depois de toda formada na barriga da mamãe. Assim o presente maior foi dado-me como uma dádiva. Não posso disperdiçar a oportunidade. Antes os desejos soavam como a nona sinfonia de Beethoven em meus delicados ouvidinhos, hoje são como bate-estacas amorais que penetram no meu tímpano e rasgam todo o tecido nervoso dentro dele... Invadindo tudo, até os meu sonhos.

Dei-me conta do quanto a prisão estava adormecida diante dos meus olhos, do quanto os dias de cinza me remetiam a sentimentos absortos por lembranças retrógadas que nem o choro em mim provocava mais. As lágrimas que choro, devem ser merecidas por um anterior plano, um anterior mundo, o meu mundo-eu. Que quando sempre a tal devastadora penetra em mim, me faz esquecer.

Então o parecer é de que tudo demais complica. E eu gosto de complicar. Eu transbordo. E é complicando que se recebe.


Lorena A.

Divagações [não] têm que ser curtas 1

Acordei. O sonho ainda está fresco na minha cabeça. Mas o que foi aquilo, meu Deus? Lixo? Só pode ser. Será isso uma projeção do meu inconsciente? Será isso desejo resguardado? Provavelmente. Eu poderia considerá-lo um sonho bom? sei lá, só sei que esse tal sonho continua pulsando na minha mente e provavelmente irá acompanhar-me durante todo o dia. [E eu continuarei querendo estar de volta àquele sonho... ou na pior das hipóteses que ele se tornasse realidade].

As portas se abrem e eu caio no mundo, no coma profundo de uma humanidade insana que me julga de puritana. Quem, eu? Não, filho, sou pervertida, perversão, permitida. Alguns acham bonito, outros acham ridículo. Acham que eu faço tipo, ou pensam mesmo que é até estilo. O achar dos outros pra mim é intencionalidade, é provavelmente a intensa vontade de ser o que não conseguem. Bom, dentro das minhas vontades só consigo encontrar o meu eu, o ego tempestivo, a vontade própria, o encalço latejante.

Um dia, quiseram ensinar-me que se deve deixar as coisas acontecerem, mas infelizmente eu perdi essa aula, devo ter chegado atrasada e ainda tirei nota baixa. Fiz faculdade na poesia, mas mesmo assim não consegui passar nessa matéria. Acho que os professores nunca gostaram de mim de verdade e/ou foi eu que gostei demais deles. Fiquei reprovada, hoje ando com a turma mais nova, embora muitos pensem que eu não estude mais.

Queria mesmo era poder voar, poder ser invisível apego dos outros. Cansar de tentar pintar o céu de azul e as unhas de vermelho. Poder jurar que o amor existe e viver dentro sempre de uma doce ilusão. Mas não. Sendo aqui ou acolá, o já era ou já foi sempre existe e eu mesmo que fique triste, posso morrer na câma[ra] de gás ou nos braços de outro que tudo tem que sempre estar bem. O meu íntimo, que se foda.


Lorena A.

Vácuo.



E naquela noite me dei conta enfim
De quem era eu
Do que havia se perdido,
Do encanto que havia sido quebrado
E do que não encontrava mais
Nos olhos do outro.
Senti o vácuo dominador de esperança
No triste silêncio imperador
Em não ser mais eu
E ser você.
Aliás, não ser mais nenhum
Nem morto.
Ser vazio oculto, destino.
Ser sóbrio.




Lorena A.

Contra-senso



Curvas... dançam sombras sobre elas.
Luas... pairam no ar a te sombrear.
Nua... o teu eu engrandece os meus olhos
invade-me
O desejo... vejo estampar-te o rosto
Sem escrúpulos
No submundo do teu olhar...

Olhos... janelas da verdadeira alma
Do prazer exato
Através deles eu posso te alcançar...
Alcançar esse teu eu
O mais perfeito e delicioso,
Eu.

Na malícia de cada gesto meu
O encaixe perfeito.
A contração latente
Que por ser tão exigente
Me faz perder o além
O além de algum senso
O contra-senso,
De ter você em mim.



Lorena A.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Picadeiro.


E na tarde fez-se o espetáculo!
Peças flutuando nas paredes de minha mente.
Perambulando como coisas abandonadas.

Os sonhos tornaram-se realidade!
A alegria ansiada
Desejada,
Tomou conta do picadeiro por partes...
Ocupando devagarzinho em cada cadeira vazia,
Em cada olhar ruidoso,
Em cada gesto de sabedoria.

Os palhaços me animaram
Com sua forte indulgência de amar-me;
Mesmo escondendo em suas faces,
A triste dor que em breve
Iria amargura-me.

Não condeno o passado
Não clamo pelo futuro
Faço parte de um presente
Onde todos os palhaços morrem
Dentro do meu coração fingidor
Que, em verdadeiro sentimento,
Não consegue não sentir-te a dor.


Lorena A.


Death´s angel.



Quem dera eu um dia,
Dentro de uma tarde vazia
Preencher-me com tua compaixão,
Com sentimentos perdidos,
Trazidos dentro de brisas fósseis
E densas.

O anjo de candura se valeu
De uma forte força de vontade
E soprou em meu ouvido
Um belo arrepio
Que me fez repudiar você.

Mas que anjo era esse
Vindo dentro de uma nuvem de dúvidas
Embalsamado de tristeza
Absoluto por fraqueza
Vem aqui,
Por ti, me atormentar?

Não sei pequenino anjo
O que vale dentro desta tua pequena missão amargurada
Cheia de entraves asmáticos
Faltas de ar
E de desejos.

Eu sabia anjo,
Eu sabia.

Eras tu, anjo de morte.



Lorena A.

Amargo Amor.

- São apenas crianças!

Diriam suas mães,
Mas o belo resguardo de seus sonhos
Fazem-lhe adultos,
Donos de sua própria conduta
De suas próprias condições.
Quem deles poderia dizer,
O quando quer amadurecer?

O nada lhe diz a fraude.
O corpo amadurece,
Mas a cabeça tarda.

E as mães são mesmo assim,
Mais cheias de luz
E de intuição,
Fervem num caldeirão de cegueira,
Tendo como desculpa,
A falta de razão
E um fajuto e permissivo

Um amargo amor.





Lorena A.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

¿entón?




avante justiceiro!

porque já não se fazem mais heróis

como antigamente.

até aqueles [bem]ditos,

já tornaram-se escassos,

e minh´alma... amargurada.

toma tuas dores e segue

como o cão que persegue o dono de tudo

o dono das dores

e das redenções.


junte ao teu calvário de possuidores

o haver mais um no mundo dos surdos

no mundo dos cegos,

dos aleijados de compaixão.

e sem mais delongas


o que estás a fazer,

entón??



Lorena A.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Coração de vidro.



Trincou.
Quando aquela imagem me apareceu entre córneas,
O vidro não temperado trincou,
Rachou,
E eu fiquei inerte
Feito pomba atropelada.

Quando aquele a quem eu nunca tinha visto
Se apresentou no seu mais belo
Sendo ele mesmo
Me veio um turbilhão
Questionamentos fúteis
Irrelevantes.

Fazer o quê?
Eu ainda penso...
Pelo menos no que poderia vir depois daquilo tudo.

E veio.
Junto com os outros palhaços.

Hoje,
Meu coração de vidro
Virou este circo.



Lorena A.

scraps.


Trimera Casa de Letras.

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